A Actuação da União Europeia na segurança global (PESC e PCSD)


A Actuação da União Europeia na segurança global (PESC e PCSD)
            Quando a União se vê confrontada com crises concretas é necessária uma resposta rápida e eficaz e, desde que adoptou a Estratégia de Segurança Europeia, em 2003, a União Europeia tem tido uma actuação no terreno muito relevante.
Esta Estratégia de Segurança Europeia estabeleceu, pela primeira vez, princípios e definiu objectivos claros para promover os interesses da União Europeia em matéria de segurança, com base nos seus valores fundamentais, tendo uma abordagem global e relevante desde a sua aprovação, em Dezembro de 2003[1] e, como refere Javier Solana no relatório de 2008 “Nada descreve melhor as nossas aspirações do que o próprio título da Estratégia: «Uma Europa segura num mundo melhor» ”[2].
Operações e missões realizadas pela União
De facto, a União Europeia tem levado a cabo missões e operações civis e militares, não só num nível de actuação preventivo, como também de medidas restritivas e, além dessas, a União tem privilegiado medidas positivas às medidas de retaliação, no âmbito da Política Externa de Segurança Comum e da Política Comum de Segurança e Defesa, de ora em diante referidas como PESC e PCSD, respectivamente.
            No que respeita às missões militares e civis, os Estados-Membros podem deslocar forças multinacionais militares para estas serem levadas a cabo, destacando as “operações conjuntas de desarmamento, as missões humanitárias e de salvamento, a assistência e treino militar, prevenção de conflitos e manutenção da paz, incluindo estabilização pós-conflito”[3], Sendo que podem ainda contribuir no combate ao terrorismo.
As missões militares visam o apoio aos esforços à restauração da paz e da segurança nos Estados e regiões periféricos da União, apesar de o ambiente da segurança nestas regiões não se ter alterado significativamente nos últimos anos, o terrorismo, a cibersegurança, as ameaças híbridas e a proliferação de armas e destruição massiva têm sido os principais novos desafios do papel da União na segurança global, os quais necessitam de respostas inovadoras.
Medidas de intervenção postas em prática em matéria da segurança global
            Quanto às medidas tomadas pela União, esta tem privilegiado a actuação quanto à prevenção dos conflitos e da resposta rápida, contudo, as medidas restritivas continuam a ter uma enorme relevância enquanto instrumento de actuação. A prevenção dos conflitos faz-se, desde logo, através de instrumentos jurídicos, o que tem sido relevante no combate a problemas já referidos como a luta contra a proliferação das armas nucleares, mísseis e armas biológicas e tóxicas, entre outras. As medidas restritivas aumentaram o seu número e âmbito desde o Tratado de Maastricht, que permitiu à União impor sanções políticas, passando a incluir o sistema de smart decisions[4]. As medidas restritivas não se dirigem somente aos Estados, mas também aos indivíduos e a atores não estaduais, como as organizações terroristas, assim como um dos seus objectivos mais comuns é a protecção dos direitos fundamentais, mas também podem fazer parte da gestão da crise ou uma reacção contra a proliferação de armas ou até contra o terrorismo.
As medidas restritivas podem constituir sanções diversas: económicas, relativas à cooperação ou relativas à exportação de armas e sanções pessoais. Contudo, a implementação destas medidas tem obstáculos políticos e técnicos, como a sua definição, amplitude e natureza, que pressupõe a tomada de decisões de nível interno, que dependem de várias instituições, órgãos e organismos da União Europeia (o Conselho, a Comissão e o Serviço Europeu para a Acção Externa), o que atrasa todo o processo e a implementação das mesmas, do mesmo modo que o impacto das medidas vai depender do grau de interdependência do destinatário das mesmas em relação à União e da envolvente política.
            Por fim, a União tem vindo ainda a apostar em medidas positivas, as quais incluem, como refere a Professora Ana Guerra Martins, “o diálogo político, a nomeação de representantes especiais para certas questões, a defesa da democracia e da protecção de direitos humanos, designadamente, através da observação e supervisão em processos eleitorais e processos de democratização de certos Estados terceiros.”.
            É notório que a União tem contribuído para criar a segurança humana, reduzindo os níveis de pobreza e as desigualdades, promovendo a boa governação e os direitos humanos, prestando ajuda ao desenvolvimento e atacando as causas profundas dos conflitos e da insegurança, continuando a ser o maior doador dos países necessitados e é imprescindível assumir compromissos a longo prazo na perspectiva de uma estabilização duradoura, como refere o relatório sobre a Estratégia de Segurança Europeia[5].
            Este relatório destaca, ainda, o êxito da actuação da PESC, como o resultado de uma política externa e de segurança que a Europa aborda de maneira distinta. Para garantir a segurança e corresponder às expectativas dos nossos cidadãos, a União Europeia tem de estar pronta a moldar os acontecimentos, sendo mais estratégica na sua forma de pensar e mais eficaz e visível no mundo. É quando actua com oportunidade e coerência, contando com as necessárias capacidades e com o apoio da opinião pública que a União, especialmente no âmbito da Política de Segurança comum, alcança maiores sucessos.
Política Europeia de Segurança Comum[6]
A PESC, foi instituída em 1993 e foi reforçada pelos Tratados. Hoje, o Parlamento escrutina a PESC e contribui para o seu desenvolvimento, em especial apoiando o Serviço Europeu para a Acção Externa, os representantes especiais da União Europeia e as delegações da União. Os poderes orçamentais do Parlamento definem a escala e o Âmbito da PESC, assim como os instrumentos financeiros da União Europeia que sustentam as actividades externas da União.
            Em Junho de 2016, a Alta Representante apresentou a Estratégia Global para a Politica Externa e de Segurança da União. Com ênfase na segurança, ambição de autonomia estratégica e a sua abordagem no contexto europeu que assenta em princípios, esta estratégia representa uma mudança significativa da filosofia subjacente à já referida Estratégia Europeia de Segurança de 2003.
            Esta Estratégia identifica cinco prioridades para a política externa: a segurança da União; a resiliência do Estado e da sociedade a leste e a sul da União; uma abordagem integrada dos conflitos; ordens regionais de cooperação; e governação mundial para o século XXI. Para a sua execução, a União Europeia reverá as estratégias sectoriais existentes e conceberá e implementará novas estratégias temáticas ou geográficas em consonância com as prioridades da estratégia global para a política externas e de segurança da União Europeia.
No final de 2018, o Parlamento apresentou o relatório anual sobre a execução da PESC. Reiterando que as soluções para os desafios da União só podem ser encontradas colectivamente, os deputados, apelaram a uma verdadeira política externa e de segurança comum europeia, baseada na autonomia estratégica e na integração desta política, nomeadamente em termos de capacidade, nos domínios da indústria e das operações. O relatório recomenda que se reforce a resiliência interna da União Europeia à ingerência externa e que se estabeleça uma estratégia comum com os parceiros internacional, que se invista na estabilidade e prosperidade dos Balcãs Ocidentais, se promovam relações mais estreitas no âmbito da Parceria através do reforço dos laços económicos e se promova o desenvolvimento económico e social na bacia do Sul do Mediterrâneo e na África Subsariana. O relatório reconhece igualmente o impacto positivo que o estabelecimento de uma Cooperação Estruturada Permanente e a Análise Anual Coordenada em matéria de Defesa terão na cooperação no domínio da defesa.
Política Comum de Segurança e Defesa[7]
Contudo, não se pode referir a PESC e a sua actuação e desenvolvimento sem fazer também referência à PCSD: esta é parte integrante da PESC e estabelece o quadro para as estruturas políticas e militares da União Europeia, assim como para as missões e operações civis e militares no estrangeiro.            A PCSD foi criada como um instrumento de gestão de crises, tendo em vista a definição de uma política de defesa comum progressiva, o que torna o desenvolvimento das capacidades operacionais para a manutenção da paz, o reforço da segurança internacional e a prevenção de conflitos muito importante, como afirma a Professora Ana Maria Guerra Martins.
A Estratégia Global da União de 2016 define a estratégia para a PCSD, enquanto o Tratado de Lisboa clarifica os aspectos institucionais e reforça o papel do Parlamento. Esta política foi objecto de importantes alterações estratégicas e operacionais para fazer face aos desafios em matéria de segurança e à insistência dos cidadãos em obter mais respostas por parte da União.
Em Novembro de 2016, a Alta Representante apresentou ao Conselho dos Negócios Estrangeiros um plano de execução da PCSD. Este tinha como objectivo tornar operacional a visão definida na EUGS no que diz respeito às questões de defesa e de segurança. O plano de execução da PCSD identifica três conjuntos de prioridades para as quais cada missão da PCSD pode contribuir para: dar resposta aos conflitos e crises externos; reforçar o desenvolvimento das capacidades dos parceiros; e proteger a União Europeia e os seus cidadãos.
            Os anos de 2017 e 2018 foram os anos de maior destaque na implementação e progressão da PCSD, desde logo o estabelecimento da Capacidade Militar de Planeamento e Condução, uma nova estrutura destinada a melhorar a capacidade da União para reagir de forma mais célere, eficaz e fluída, tendo em vista o planeamento e a condução de missões militares não executivas, assim como os progressos substanciais ao longo desses dois anos, em domínios como o pacto sobre a vertente civil da PCSD, o reforço da CMPC e outras áreas desta política. Em Dezembro de 2018, os líderes da União Europeia também reconheceram os progressos alcançados no domínio da segurança e da defesa, sublinhando a evolução da Cooperação Estruturada Permanente, a mobilidade militar e o pacto civil no domínio da PCSD.
            O Parlamento Europeu prossegue a sua acção ao nível e no âmbito das suas competências, com vista a facilitar e apoiar a consecução dos objectivos da União Europeia, desempenhando o seu papel de garante da segurança de uma forma eficaz e visível, tal como solicitado pelos cidadãos da União.
Em suma, é indiscutível que a União Europeia é reconhecida pelo seu importante contributo para um mundo melhor e mais seguro e, como tal, para que se desenvolvam todas as suas potencialidades, é necessária ainda mais capacidade, mais coerência e mais acção, por parte da União e dos seus Órgãos, assim como dos seus Estados-Membros.

Sofia Vicente Ramos, subturma 9 nº56964

Bibliografia e sitografia
®    MARTINS, Ana Maria Guerra, Os Desafios Contemporâneos à Acção Externa da União Europeia – Lições de Direito Internacional Público II, Coimbra, Almedina, Setembro 2018


[3] Enunciação realizada pela Professora Regente no seu manual
[4] Este sistema tem como principal objectivo atingir essencialmente os responsáveis, como, por exemplo, os decisores políticos e as elites que supostamente pressionam os governantes e compreende, entre outras sanções, o congelamento de contas bancárias e a proibição de saída e entrada no território da União.

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