O BREXIT e a Política de Defesa


António Graça, 4º Ano, Sub-Turma 9, nº 26616

TEMA: O BREXIT e a Política de Defesa

1        1. Introdução: O âmbito da Política Comum de Segurança e Defesa da União Europeia

O Tratado da União Europeia, nos artigos 24º e 25º, estabelece que a Política Externa e de Segurança Comum abrange “todos os domínios da política externa, bem como todas as questões relativas à segurança da União, incluindo a definição gradual de uma política comum de defesa que poderá conduzir a uma defesa comum”. Por sua vez, o artigo 42º, números 1 e 2, esclarece que “a política comum de segurança e defesa faz parte integrante da política externa e de segurança comum”.

Estas disposições indicam que a saída da União Europeia por parte do Reino Unido ao abrigo do artigo 50º tem consequências jurídico-políticas num campo tão sensível como é o da segurança e defesa, uma das principais causas do projecto europeu para apaziguar os inimigos da 2ª Guerra Mundial.

A Política Comum de Segurança e Defesa (PCSD) tem tido uma rápida evolução nos últimos anos e é um dos campos onde as decisões têm sido unânimes a nível institucional, excepto na designada PESCO (Permanent Structured Cooperation).[1] Esta, introduzida pelo Tratado de Lisboa, representa a pressão da França e da Alemanha, entre outros países-membros, para aprofundar a integração da Defesa europeia, nomeadamente da Agência Europeia de Defesa. Entre outros objectivos, um dos principais é a criação de grupos de combate para missões de 30 e de 120 dias juntamente com a promoção da interoperabilidade e a intensificação do investimento de defesa.[2]

Por outro lado, entre 2016 e 2018, por exemplo, foi elaborada a “Estratégia Global para a Política Externa e de Segurança da União Europeia”, estabelecida a “Capacidade Militar de Planeamento e Condução” e definido um “roteiro” para a aplicação da PESCO.[3]

É curioso que estas decisões foram tomadas imediatamente a seguir ao referendo do BREXIT em Junho de 2016, e que o Reino Unido, enquanto membro da União Europeia tem sido o principal opositor do aprofundamento da PCSD, sobrepondo o princípio “Nato first”.  

2     2. As Consequências do BREXIT para a Política Comum de Segurança e Defesa

De momento há muitas incertezas quanto às consequências do BREXIT. A data agora anunciada é 31 de Dezembro de 2020 mas os sucessivos adiamentos mostram a grande preocupação de ambas as partes sobre a situação.

A União Europeia enfrenta, atualmente, diversos problemas em matéria de Segurança, entre os quais se destacam: ameaças externas por parte de países como a Rússia, a crise de migração, terrorismo, ciberterrorismo e terrorismo nuclear.   

No que respeita especificamente às consequências do BREXIT para a União Europeia em termos de PCSD, podem ser indicadas as seguintes:

- A despesa da União Europeia em segurança e defesa vai diminuir a curto prazo, em particular nas áreas investigação e indústria, por causa do peso que até aqui o Reino Unido tem tido no sector. O Brexit representa assim um grande desafio para a União Europeia no que toca à PCSD;[4]

- Um outro aspecto é a possibilidade de aumentarem as incertezas para União Europeia quanto às ameaças como o terrorismo ou o cibersegurança por causa do modelo da futura cooperação internacional do Reino Unido nesta área;[5]

- Os problemas migratórios dos cidadãos europeus residentes no Reino Unido, que culminará numa grande incerteza sobre o que acontecerá aos direitos dos emigrantes europeus. Passa a ser mais evidente o vazio legal e jurídico, o que pode levar a que estes emigrantes vejam alguns dos seus principais direitos postos em causa, nomeadamente no âmbito da livre circulação, habitação e segurança social, levando também a um enfraquecimento da União Europeia[6], que no limite podem ter consequências negativas na segurança e defesa;

- O crescente caminho da Alemanha como a maior potência económica da União Europeia poderá resultar no renascimento de ideias de desenvolvimento das suas forças armadas em conjunto com as da França, para alimentar a constituição de um exército europeu, entrando assim em conflito com o projecto da NATO e pressionando os restantes países-membros. É de recordar que a Alemanha ainda recentemente na História teve o projecto militar de ser a grande potência mundial.[7]

No que toca especificamente às consequências do BREXIT em termos de PCSD para o Reino Unido, a Professora Ana Maria Guerra Martins nota o seguinte:

“O Reino Unido é o Estado que mais investe em matéria de defesa e dispõe do quinto maior orçamento de defesa do mundo. O contributo do Reino Unido para a capacidade coletiva de defesa europeia está estimado em 1/4. O Reino Unido investe 2% do seu PIB em defesa. É (a par da França) uma das duas potências nucleares Europeias”[8]

O Reino Unido ao sair da União Europeia aparenta assim ir sofrer um conjunto de consequências, de entre as quais destaco:

- A provável queda do valor da libra, causado por um possível “HARD BREXIT”, que terá como previsível efeito uma turbulência dos mercados financeiros e económicos pelo facto de os investidores venderem a libra como forma de mostrar descontentamento pelas políticas do governo do Reino Unido face à saída da União Europeia;[9]

- A perda de influência e participação nos órgãos e nos mecanismos europeus, nomeadamente na Agência Europeia de Defesa, que resultará em que o Reino Unido fique mais isolado em matéria de Segurança Nacional e Internacional, não podendo, assim contar com a ajuda e cooperação dos diversos Estados-Membros em matérias relacionadas com a Defesa;

- O prejuízo no domínio da investigação e da ciência em áreas como a indústria de segurança, proveniente da perda por parte do Reino Unido de fundos e subsídios a que tinha direito, juntamente com os outros Estados Membros, desde de 2007, que perfazia uma quantia de 8 biliões de Libras, ou seja, cerca de 9 biliões de Euros; [10]

- A possível perda de preponderância no Conselho de Segurança das Nações Unidas, pois embora o Reino Unido seja um membro permanente deste conselho, com a saída da União a sua posição ficará enfraquecida, visto que poderá deixar de contar com o apoio da França e consequentemente da União Europeia em diversas matérias.[11]

- A também possível tendência de desintegração do Reino Unido, uma vez que a Escócia e a Irlanda do Norte são defensoras do Projecto Europeu, com consequências imprevisíveis para a segurança e defesa da União Europeia.

      3. Conclusão: Que Futuro para a PCSD Pós-BREXIT?

Os problemas acima enunciados levarão provavelmente a que a União Europeia e o Reino Unido estabeleçam protocolos de cooperação em matérias de segurança e de defesa internacionais.
Na minha opinião, essa cooperação será fundamental para manter a paz e a ordem social no mundo e em particular na União Europeia. Será de máxima importância que os protocolos de colaboração que se estabeleçam entre estas duas potências representem uma entreajuda viável e precisa, a fim de evitar o concretizar das ameaças terroristas e de ataques aos princípios e valores democráticos por parte de movimentos religiosos radicais.

No fundo, as ameaças referidas acima no ponto 2, vão continuar a ser problemas que afetarão diretamente a segurança quer da União Europeia quer do Reino Unido. Poderá o BREXIT ser uma oportunidade para o Reino Unido no campo da defesa e segurança? Na minha ótica sim, pois deixará de estar sob alçada das diretivas da União Europeia e poderá concentrar todas as suas disponibilidades nas mais diversas áreas, desde o armamento ao conhecimento tecnológico na NATO e no conselho de segurança das Nações Unidas, do qual é membro permanente. Para além disto, é importante referir aqui o possível papel da organização intergovernamental denominada de Commonwealth, onde o Reino Unido tem o papel de país dominante. Isto leva a que acordos, protocolos ou tratados com países-membros desta organização sejam mais fáceis de se concretizarem e possam ser mais eficazes.

Por outro lado, no âmbito da segurança e defesa, a Índia poderá vir a ter um papel muito importante com o culminar do BREXIT, visto que para além do elevado potencial de desenvolvimento tecnológico, tem vindo assumir-se declaradamente como parceiro estratégico do Reino Unido no projecto de reactivação do papel da Commonwealth no mundo, inevitavelmente em concorrência com a União Europeia.[12]


[1] Ver Zsuzsanna Csornai, Evaluating the Effects of Brexit on the EU’s Common Security and Defence Policy, Institute for Foreign Affairs and Trade, 2017, p. 3
[2] Idem, p. 6
[3] Ver Tuula Turunen, Política Comum de Segurança e Defesa, Fichas Técnicas sobre a União Europeia, 2019, pp.3-5 (www.europarl.europa.eu/factsheets/pt)
[4] Ver Ana Maria Guerra Martins, Os Desafios Contemporâneos à Ação Externa da União Europeia, ed. Livraria Almedina, 2018, p. 455.
[5] Idem, p.457
[6] Ver www.dn.pt/mundo/cidadaos-da-ue-podem-nao-ter-direitos-garantidos-apos-o-brexit-10724953.html
[7] Ver Marisa Fernandes, Geopolítica da Alemanha: Ratzel, Haushofer e as duas Guerras Mundiais do Século XX, ed. Instituto Universitário Militar, 2016.
[8] Ana Maria Guerra Martins, Os Desafios Contemporâneos à Ação Externa da União Europeia, ed. Livraria Almedina, 2018, p. 454.
[9] James Black, Alex Hall, Kate Cox, Marta Kepe, Erik Silfversten, Defence and Security after Brexit, ed. RAND Europe, 2017, p. 34.
[10] Ana Maria Guerra Martins, Os Desafios Contemporâneos à Ação Externa da União Europeia, ed. Livraria Almedina, 2018 p. 455.
[11] Idem, p.456

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